Afinal, qual instrumento é melhor: de fábrica ou de luthier?

Esse artigo é o primeiro da série “Ciência e Tecnologia da Lutheria”, que abordará temas extremamente importantes para a construção e entendimento dos instrumentos musicais. Fazemos isso pois esses conhecimentos são poucos divulgados e cremos que todos devem ter o direito de tê-lo.

Um questionamento é muito recorrente: os instrumentos feitos a mão (de luthier) são melhores que os instrumentos feitos em fábrica? É uma ótima pergunta, porém complexa. Instrumentos de luthier são produtos muito diferentes de instrumentos de fábrica. Eles são construídos de maneiras diferentes, com propósitos diferentes e para mercados diferentes. Enquanto fábricas fazem instrumentos bons o bastante para agradar o mercado de massa, luthiers têm de construir instrumentos que atendem e agradam as necessidades de músicos.

Mas afinal, o que é um instrumento feito a mão? Esse questionamento nasce da realidade de todos os luthiers usarem máquinas e ferramentas elétricas para a construção. Isso foi tema de um longa discussão. Após muito debate, decidiu-se que a resposta tinha a ver com a liberdade de uso da ferramenta. Sendo assim, instrumentos poderiam ser consideradas feitos à mão se a ferramenta pudesse ser usada com um grau de liberdade ditada pelas necessidades do trabalho e pela vontade do operador, ao contrário de uma fábrica, que toda construção está pré-meditada. Outra conclusão é que instrumentos feitos em fábrica são produzidas em massa, e os feitos à mão não. Embora isso possa parecer óbvio, uma série de implicações surgem a partir deste fato básico:

  1. Relações pessoais
    Ao entrar em contato com um luthier, você vai estabelecer um relacionamento pessoal com alguém que pode durar anos, o que pode se tornar um importante. Ele certamente estará disponível para você para consultar ou para cuidar de alguma dificuldade, pois ele sente a responsabilidade pelo trabalho que ele fez. Com um instrumento feito em fábrica, você não pode ter esse relacionamento pessoal com o fabricante. O melhor relacionamento que você pode ter é com a loja que você comprou o instrumento.
  2. Poder de escolha para variações
    Os instrumentos de fábrica são feitos todos iguais e em grande número. Um luthier pode fornecer-lhe um instrumento que é feito sob medida para você de muitas maneiras. À medida que os estilos musicais e as técnicas de execução evoluem, os instrumentos podem necessitar diferentes comprimentos de escala, ações, larguras de braço, tamanho de trastes, espaçamentos entre cordas, afinações, tonalidades, madeiras, formas, tamanhos, etc. Como essa variabilidade compromete a produção em fábrica, somente luthiers podem dar a possibilidade da construção de um instrumento particular.
     
  3. Qualidade vs Preço
    Um instrumento de luthier levará um preço que reflete seu real valor em termos de trabalho, podendo levar 200 horas que alguém conscientemente investiu tempo e habilidade. No caso das fábricas, podem levar de 8 a 36 horas de trabalho intensamente repetitivo e automatizado. Uma fábrica fará de tudo para que seu instrumento gere o máximo de lucro, diminuindo o preço a todo custo para aumentar a venda, incluindo peças feitas por terceiros e fazendo uso campanhas publicitárias, sem se preocupar com a qualidade do instrumento. Um luthier faz um instrumento o quão bom ele pode fazê-lo, agregando o máximo de valor que consegue, sem um motivo primordial de lucro.
     
  4. O que é qualidade?
    A fábrica considera que qualidade pode ser a medida pela efetividade que suas partes podem ser feitas de forma idêntica e pela rapidez que seus instrumentos podem ser montados de forma consistente e livre de problemas. Do ponto de vista do músico, a qualidade não tem nada a ver com isso: tem a ver com a tocabilidade do instrumento e o quanto ele soa bem. Esta é a atitude do luthier: criar uma ferramenta pessoal e eficaz para o músico. O principal ideal por trás dos instrumentos de fábrica é que eles sejam vendáveis; o principal ideal por trás do instrumento de luthier é a qualidade do som e da tocabilidade.
    Se a qualidade para a fábrica tem a ver com eficiência e consistência em fazer coisas idênticas, não pode ser assim para o luthiers. E por razões óbvias: há muitos luthiers trabalhando em níveis muito diferentes de habilidade e talento criativo, e eles têm diferentes conceitos de “melhor”, da mesma maneira que os músicos. E é essa diferenciação que possibilita a coexistência saudável de diversos luthiers pelo nosso país e pelo mundo.
     
  5. Padronização vs Flexibilização na construção
    Uma fábrica é orientada para operar sem problemas de uma forma padronizada, não personalizada. Suas prioridades são a automação de procedimentos e a padronização de peças. O luthier, por outro lado, é flexível. Esta metodologia é essencial devido à variabilidade inata das madeiras: dois tampos de violão com espessura idêntica podem diferir em até 100% em densidade, 200% em rigidez longitudinal e 300% em rigidez lateral, por exemplo. Para cada instrumento específico, com suas madeiras selecionadas, existe um julgamento do luthier aplicado na construção desse instrumento particular.
    Esta é, de fato, a distinção essencial entre o produto de fábrica e o produto de artesão. O produto da fábrica é baseado na divisão e automação do trabalho. Faz-se repetidamente, muitas vezes ao dia, em um nível que atenda aos critérios de aceitação da fábrica. O artesão, em comparação, tem de ser conhecedor de toda construção. Ele deve passar anos para dominar todas as técnicas e habilidades necessárias para produzir um instrumento de alta qualidade. A necessidade de realizar todas as operações de alto padrão não é diferente de um desempenho atlético olímpico: fazer um único erro e você ficar aquém do objetivo. Apontar tão alto é um esforço extremamente exigente que o luthier tem de cumprir.
     
  6. Som
    Um bom luthier entende que pequenas variações na estrutura podem fazer diferenças específicas. Há tantos lugares onde se pode tirar ou adicionar um pouco de madeira, que a diferença entre “um pouco mais” ou “um pouco menos” pode ser crucial. Este é o nível de trabalho que um luthier se envolve e se esforça para dominar. A abordagem de fábrica não pode gastar tanto tempo em cada instrumento. O som em um instrumento é controlado por prestar atenção às qualidades específicas dos materiais. No entanto, o foco da fábrica no tratamento uniforme de todas as peças ignora esses fatores importantes.
     
  7. Tocabilidade
    Uma vez que os instrumentos da fábrica são montados em grandes quantidades, quase sempre precisam de ajuste antes de serem tocados, devido a sua tocabilidade ruim. Luthiers, por outro lado, geralmente fazem essas coisas antes da entrega, já que um instrumento que não é tão perfeito quanto possível não está pronto para ser entregue.
     
  8. Durabilidade
    Cada pessoa do público geral tocará o instrumento com diferentes graus de cuidado, usará cordas diferentes, tocará de forma diferente, viverá em cidades diferentes ou mesmo países com diferentes climas, temperaturas, altitudes e umidades. A preocupação da fábrica é construir instrumento capazes de suportar essas condições imprevisíveis. Isso explica sua extrema resistência e rigidez, perdendo qualidade sonora. Luthiers estão preocupados em fazer instrumentos para músicos que sabem tratar estes com algum cuidado. Esses instrumentos podem tornar-se mais delicados e frágeis – e isso torna possível um instrumento com melhor tocabilidade e sonoridade. A fábrica não pode permitir-se produzir instrumentos frágeis e de máxima sonoridade: para cada incremento de fragilidade, pode-se prever um certo número previsível de danos e falhas estruturais, e o fabricante afundaria sob o peso do trabalho de garantia.

Esta lista lista poderia se estender eternamente, mas ficaremos com esse pequeno prelúdio sobre as diferenças básicas entre instrumentos de fábrica e instrumentos de Luthier. Ficamos felizes se esse conhecimento foi proveitoso aos leitores. Um grande abraço a todos, e fiquem atentos aos novos artigos da série “Ciência e Tecnologia da Lutheria”.